segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A criação da eremita

... e, de arma apontada à própria cabeça, vocifera contra a família que o abandonara. Seu único filho come seu pedaço de pizza enquanto olha-o fixamente, embora com indiferença. Paolo compreende, finalmente, sua insignificância: se houve algum acontecimento que o tornou importante em sua quinquagenária vida foi ter sobrevivido e tirado proveito da grande crise econômica, o que possibilitou a boa formação de Marco, que agora ingeria a pizza preparada pelo pai, saboreando seu gosto de morte. Paolo desiste do disparo, mas não por muito tempo.”

A primeira metade do livro já foi lida. Aline sentia-se tão envolvida pela trama que logo tratou de virar a página. O restante, contudo, estava em branco, e ela não tinha a menor ideia de como preenchê-lo. Sabia como a história termina e como toda a trama se desenrolava e terminaria na pizza que Marco digeria; faltava-lhe desenvolver o resto. O último parágrafo já estava em sua cabeça: “Paolo disparou silenciosamente, e executou sua família, seu bem mais precioso, de forma indolor e ingênua; eles caíram subitamente, um a um, em paz. Assim, seria bem quisto no paraíso.”. Um caminho de 120 páginas a se percorrer para explicar a ligação entre aquele momento e todo o contexto, projetar ações em seus personagens, tornar mafiosos caricaturais em seres densos, soturnos; criaturas que agem durante a noite, silenciosos e eficazes; predadores quase que naturais. Tanta ferocidade os levaria à ruína pela fome e pelo egocentrismo. Paolo aplicara-lhes um teste, e eles todos falharam.

O final, a moral da história, a tese de que o homem morre pela sua própria fome estava pronta; faltava a Aline argumentar nessa direção. Construir esse caminho como natural, como seres humanos, tendo poderes sobre a vida de outros, se corrompem aos poucos. Os grandes marcos se construíam rapidamente na cabeça de Aline; era capaz de descrever com grande eloquência a decapitação de Luís XVI, mas não passava pela sua cabeça o processo de esfriamento do coração do carrasco até aquele momento. Como teria sido sua infância? Sua primeira execução? O primeiro disparar de coração ao tirar a vida de uma criatura qualquer, a primeira hesitação diante da súplica desesperada de um homem que transmitia a inocência de sua alma pelos olhos?

Aline esperou pelo anoitecer e foi até a rua mais isolada de seu bairro: uma pequena viela repleta de pequenas casas térreas, onde residem idosos que seguem um padrão de vida interiorano. Às 9 horas a rua está morta e escura, já que a luz dos postes não funciona e nenhum carro passa por ali. Em poucos minutos, seus olhos se acostumaram à escuridão e ela já era capaz de ver o vulto dos ratos saindo dos bueiros, rumo à caçada noturna de restos dos humanos. Um calafrio lhe subiu à espinha quando a cauda de um deles roçou sua canela, embora ela não sentisse medo destes roedores. Seus ouvidos ambientados passaram a perceber o menor ruído na rua e no interior das casinhas, aflorando-lhe os devaneios mais improváveis. Aline jamais sentira medo nas ruas, mas passava a ficar atenta com o barulho de passos na esquina. Tomava nota mental de cada nova e pequena sensação, de modo a ser capaz de descrevê-las. Pensava que o escritor devia pôr-se à prova, até o limite; só assim sua escrita transcenderia o ordinário: não lhe agradava a ideia, por exemplo, de um romance onde o amor era imediato. Para ela, os distúrbios fortalecem qualquer relação e, quanto mais problemáticos os personagens, mais problemático o amor. Mas a verdadeira vida é problemática!

Aquela era uma noite de calor, mas Aline sentia suas mãos geladas, a ponto de abraçar as próprias pernas para se aquecer. E os ratos não paravam de sair; mas, ao invés de se acostumar com eles, sentia-se cada vez mais amedrontada. Passava a enxergar também pequenos pontos ligeiros nas paredes brancas. Baratas. Onde estariam as lagartixas agora? Havia fartura e ela precisava de uma certa proteção. Temia que a cada momento uma barata subiria pelos pés e ela teria que afastá-las com as mãos. Só o sentimento do talvez a amedrontava e ela passou a entender melhor como funciona a paranoia; isso seria útil para Paolo. Mas faltava-lhe ir além, e isso a manteve naquela viela escura.

Uma moto adentra a rua, apavorando Aline com o farol. O motociclista avança lentamente; ela não enxerga nada, além da luz alta voltada diretamente para seus olhos e a enorme sombra escura atrás dela. Os ratos correm desesperadamente para os bueiros e ela pensa que eles são criaturas, de fato, paranoicas. Mas o desespero de Aline a imobiliza. De coração disparado, percebe o motociclista parando ao seu lado, com a moto ligada: sua roupa é totalmente preta e é impossível ver algo dentro do capacete, que está com sua parte frontal voltada para ela. Ele desliga o motor e a observa. Dentro de uma das casas, uma tosse gutural e passos arrastados de sandália em direção à janela. O motoqueiro olha para a casa e Aline, apertando a saia de seu vestido, continua imóvel, olhando-o, atônita. Um estrondo abre a janela e mais tosses. A moto é religada e parte em disparada. Da janela, ouvem-se mais tosses, o escarrar e cuspir de um velho, que volta para sua cama nos mesmos passos arrastados de sandália. A seguir, um vento forte agita os cabelos da moça, trazendo consigo uma jasmim, que a atinge em cheio no rosto, e o maior alívio de sua vida.

Em 15 dias, termina seu projeto. “Assim, seria bem quisto por um paraíso repleto de jasmins, que estão em movimento todo o tempo, num turbilhão de tranquilidade.”

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Inércia

Aqui estou, entregue ao seu julgamento. Cansei de me esconder em heterônimos fantásticos, anacrônicos, misantropos, embriagados e herméticos que me habituei a escrever. Todos esses personagens refletem uma parte de mim no passado, presente ou ideal de futuro que sempre me foi projetado por todos ao meu redor. Mas digo de antemão: sigo o padrão dos homens e ao longo do tempo mais decepcionei que orgulhei meus congêneres. Meu trabalho sempre foi o de mascarar tamanhas decepções e torná-las justificáveis, mesmo que por vezes bastasse a simples admissão do erro e eu seria esquecido; quem sabe as expectativas sobre mim diminuíssem dessa forma?

Falei a respeito de um padrão dos homens e isso significa que considero que não há diferenças significativas entre nós. Por mais que estejamos presos a idiossincrasias, vicissitudes e genética distintas, somos incutidos por valores morais quase que idênticos desde nosso nascimento. Estes, que pretensamente igualariam os desiguais reproduziram formas de vida convenientes e angústias sem escapatória; o espírito está preso à dicotomia sucesso-fracasso, onde é possível a consulta de manuais que nos levam para um caminho ou outro. Ademais, fez com que certas pessoas acreditassem numa bondade congênita: “ele não faria mal a uma mosca!”, “ele sempre foi tão inteligente, e parece sempre contar com a sorte, vai ser bem sucedido naturalmente”. Ouvir isso nunca facilitou minha vida, mas ao contrário, a tornou mais difícil. “Naturalmente”, eu teria que ser bem sucedido em tudo o que fizesse ao longo de minha vida. E se não, não era pra ser, e logo algo melhor apareceria. Mas me responda, caro leitor: se a expectativa é que as coisas sempre melhorariam para mim, por que eu deveria me apegar ao presente ou tentar aprender com o passado? “Naturalmente”, todos os acontecimentos de minha vida seriam superados por outros, melhores, e isso diz respeito a trabalhos, amizades, amores, aprendizados.

Aos 40, percebi que as coisas, na verdade, não melhoravam e nunca tinham chegado a um ápice. Minha vida estava cercada de anti-clímax; o trabalho para o qual agora era qualificado (pois tinha negligenciado adquirir experiências e competências evocando a sorte) me era negado pela idade; uma relação amorosa, para a qual agora estava pronto para encarar com maturidade, me era negada, pois agora era um solteirão de idade relativamente avançada e que nunca se comprometera com ninguém. Não era  confiável se envolver comigo. Era tarde para recomeçar, era cedo para acabar. Restava o martírio e o peso a se carregar até o fim; as lamentações e reflexões na busca de uma descoberta sobre como minha vida chegara àquele ponto, a busca pela lógica do fracasso.

Mais uma vez, me justifiquei: a culpa estava nos que me supervalorizaram e me tornaram num preguiçoso que contava sempre com a sorte e em minha suposta superioridade sobre os demais.

Me acomodei. Cedo ou tarde, imaginava que seria agraciado pelos que tiveram a honra de me conhecer e que perceberiam meu valor naturalmente. Tudo haveria de ser natural quando se tratava de um ser superior como eu, dotado de grande capacidade inata. Me orgulhei até os 50 anos de, no colegial, calcular, de cabeça, uma multiplicação de vários algarismos mais rápido que o tempo que meus colegas levavam para realizar a operação na calculadora. Era evidente que eu aprendia mais rápido que os outros; logo, me bastariam dez minutos para entender qualquer assunto. Na faculdade, me entediava com o academicismo exagerado e discentes que estavam ali somente para puxar o saco dos docentes. Contentava-me em tirar uma nota razoável sem estudar tanto tempo e aproveitar outras facetas da vida a me matar de estudar por coisas que em anos estariam esquecidas nas profundezas de qualquer mente. Bastava o diploma e um ótimo trabalho viria naturalmente; as pessoas olhavam para mim e percebiam um ar de sabedoria e meu vocabulário rebuscado reafirmava tais pontos de vista.

Mas minha mente estava dispersa, voltada demais aos aspectos gerais da vida e pouco apegada às miudezas técnicas de ciências cartesianas sem sentido. Meus trabalhos não tinham relevância e pouco me acrescentaram ao longo dos anos. Mas naturalmente algo melhor viria. Naturalmente, um amor viria ao meu encontro. Naturalmente, eu corresponderia às expectativas que foram depositadas em mim. Naturalmente, a culpa foi dos outros. Lamento que o mundo não tenha percebido o quanto eu era especial para ele e tenha me isolado, mantendo-se em sua mediocridade.

Hoje, aos 73, percebo que o natural na linha do tempo e da vida é o declínio, a doença e a morte. Mas, naturalmente, você terá que vir a mim para aprender esta valiosa lição que tenho a lhe ensinar. Escrevo de forma medíocre, mas discurso esplendidamente.

                                                                                                P. A. de C.

sábado, 17 de setembro de 2011

Crônica de uma madrugada - Parte IV

- Cai fora, vou fechar – diz Magrão, recolhendo a garrafa sobre a mesa e limpando-a com o pano que habita seu ombro.

- Para onde ela foi? – perguntou Rodolfo, vestindo sua jaqueta.

- O que faz você pensar que eu sei e que eu diria? – respondeu o dono, virando e dirigindo-se à porta de aço já quase toda baixada. Não era mais violento, mas tampouco era cordial. Retificou o convite para o rapaz ir embora, que atendeu ao pedido, ainda que de mau grado.

Com a porta fechando às suas costas, Rodolfo roça os olhos para retirar a sujeira e mira os dois lados: à sua direita, a subida de uma rua que morre todas as noites de cima para baixo. Não iria para lugar algum seguindo essa direção, a não ser sua casa; à sua esquerda, a descida para o paraíso carnal de um fim de madrugada: boates, motéis, bares que aproveitam-se para derrubar os últimos (e insatisfeitos) sobreviventes de “lá de cima”. Há ainda prostitutas em pé no meio-fio, já desgastadas, esperando por frustrados clientes que poderiam descontar seus descontentamentos em pagamentos maiores; por outro lado, há as encostadas à parede, aguardando os clientes que vêm a pé, esperando que tenham menos energia e terminem o serviço logo. Próximo às esquinas, em ruas transversais, a xepa da prostituição: as que não trabalham para nenhum cafetão, são discretas e tem olhar atento para não serem pegas por capangas ou policiais. Na aurora, cobram verdadeiras mixarias por uma transa rápida.

Rodolfo olha para a direita, refletindo sobre a possibilidade de Letícia ter tomado a direita, em direção a um lugar que não seria nada além de sua casa, ou se descera, à procura de novos parceiros de mesa. Sua decisão seria tomada a partir disso. A escolha foi óbvia: a única chance de vê-la ainda naquele fim de noite seria descer e passar por aquela multidão de decadentes nos quais ele se reconhecia. Cada bêbado largado na calçada, dormindo no meio-fio, vomitando nos bueiros ou andando aos tropeços era uma de suas faces em tempos recentes. Nesse momento, só uma tontura, sucumbida pela determinação do rapaz em encontrar aquela velha recém-conhecida moça apaixonante do bar. Murmura para si mesmo quando a conheceu, na tentativa de obter um insight memorativo, e insultava-se por, no fim, não lembrar. Pergunta-se se as dores de cabeça eram sinal de que fora atingido na cabeça um dia e, com isso, perdido a memória. Ocasionalmente, canhões de imagens explodiam em sua mente e ele via-se com Letícia numa praia (que corpo espetacular ela tinha!), escondida em seus cachos em frente a uma lareira abraçada ao rapaz.

Mas todas estas imagens eram não mais que distantes. Não via a imagem de sua nuca, de suas costas nuas, das mãos entrelaçadas às suas, de coxas que eram beijadas, de um dedo que se prendera em meio aos cachos, de um beijo de bom dia de um rosto sem maquiagem; “então, pare de inventar que você já esteve com ela um dia”, pensou, enquanto atravessou a rua aos buzinaços do carro que cantou pneus para impedir o atropelamento. Desculpou-se com o motorista e, ao botar o pé na outra via, ouviu mais um cantar de pneus que não foi suficiente e o arremessou a alguns metros dali. Deitado, com a cabeça voltada para a rua que ainda descia, avistou as costas de uma mulher de cabelos negros encaracolados, calça e jaqueta jeans que deixava escapar uma pequena parte de uma camiseta branca. Ela entra num táxi; ele fecha seus olhos.

(Continua)

sábado, 10 de setembro de 2011

Crônica de uma madrugada - Parte III

- Sim, acho que eu também a amo, – respondeu Rodolfo, ingenuamente – mas não é isso o que eu disse. Disse que...


- Que alguém se declarou para mim na descarga do banheiro, eu entendi da primeira vez. – ela interrompeu – E minha resposta se mantém. – completou.

A dança acaba com a música, a embriaguez diminui, Letícia permanece apaixonante e Rodolfo está confuso. Ele poderia amá-la, mas teria escrito aquela mensagem? Parecia-lhe plausível: já ouvira falar de tipos de amnésia em que o indivíduo leva a vida normalmente, sem grandes questionamentos; afinal, todos esquecem a maior parte da vida e ninguém se questiona tanto a respeito dela - embora talvez devêssemos fazê-lo. A diferença desse esquecimento era somente ser involuntário.

Sentam-se à mesa, ela pede mais uma garrafa de vinho e eles bebem enquanto Rodolfo questiona a ela e a si mesmo sobre a veracidade do que acabara de ouvir. Letícia adota postura evasiva e diz, laconicamente, que ele já a amara antes e que, no ápice do romance, a pediu em casamento. Ele resignou-se por não se lembrar disso, embora enxergasse a oportunidade de uma nova tentativa nesta direção, pois estava, novamente, apaixonado a ponto de ver-se com ela em uma vida a dois. Por curiosidade, Rodolfo pergunta se ela aceitou o pedido e se vê surpreendido com a descoberta de que ela respondeu precisar pensar a respeito. Pareceu-lhe razoável uma reflexão para contrair matrimônio com alguém que se declarou num banheiro público.

À medida que ele questionava-a na tentativa de recuperar sua memória e detalhes sobre a relação que tiveram na pia ela impacientava-se. Seus copos se esvaziavam em uma velocidade alucinante, a ponto de ela beber direto da garrafa quando questionada se ainda tinha aquele mesmo vestido de que ele lembrou em rápidos flashes. Nenhuma palavra, mas um sorriso constrangido foi o que Letícia lhe direcionou e clamou por mais uma garrafa de vinho. A tontura abatera a ambos neste extraordinário ritmo de bebedeira; obviamente, também esta cena não era uma novidade para Rodolfo, que se entregou a um sorriso e sono bucólicos, enquanto ela dirigiu-se ao banheiro para regurgitar tudo o que engolira de forma alucinada nos últimos minutos.

O mundo de Rodolfo girava de forma psicodélica, ritmado por I Want You (She’s So Heavy) - título que lhe pareceu oportuno -, que ecoava pelos falantes da Jukebox. Atravessa Abbey Road e esbarra em George, pois precisou correr para fugir do Fusca branco que vinha de ré, quase o atingindo na calçada. Desculpa-se e é logo afagado pela cordialidade britânica de costume. Anoitece e ele segue caminhando até o cruzamento, onde o tráfego intenso o impede de atravessar a rua (para, quem sabe, esbarrar em Jim na outra ponta). Cansado de permanecer imóvel enquanto carros passavam, entra no pub da esquina, e em seu interior uma fanática torcida vestindo azul torce fervorosamente em um coro ensurdecedor, emudecido somente pelo cantarolar de uma moça sentada ao balcão de costas para o rapaz, usando chapéu e vestido que desnuda os ombros. Ao terminar em sua doce cantoria, o escândalo dos fanáticos volta a ressoar no ambiente, enquanto a moça se perde na multidão. Subitamente, durante um gol da equipe de azul, o ambiente é tomado pela escuridão, e uma luz branca pisca num cubículo à frente de Rodolfo, que vai até ele. 

Uma caixa de descarga com os dizeres “Letícia I Love you”, uma parede com porcelanas quebradas, uma foto de Paul McCartney colada ao teto, um espelho embaçado, a luz instável que apaga e, ao acender, traz consigo a moça de chapéu, vestido e meia-calça. Exala o mesmo perfume de porre de vinho e deixa à mostra uma boca usando batom avermelhado que clama por seu beijo, prontamente atendido. Com sua mão direita, Rodolfo ergue o vestido da mulher, sentindo a poliamida em seus dedos, enquanto ouve um pequeno riso e gemidos em forma sussurro em seu ouvido, seguido de uma voz aguda que lhe diz:

- Olhe para aquela inscrição e sinta meu interior –, sorri e morde levemente sua orelha.

Continuaram no entrelace de seus corpos até o chapéu ir ao chão e um comprido cabelo louro alcançar os quadris onde pousavam as mãos de Rodolfo. Atordoado, volta seus olhos ao rosto da moça, enxergando a mesma boca, agora manchada de batom e cintilantes olhos azuis, que lhe sorriem e dizem:

- Vou te mostrar porque não pode amá-la mais que a mim.

As mãos de Magrão sacodem o ombro do rapaz, que desperta transtornado e olha ao redor à procura de Letícia. O bar está completamente vazio e a porta do banheiro aberta; por fim, vê o relógio e indigna-se:

- Merda, dormi tudo isso?!

(Continua)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Cabeceira, vida e humanidade.

  • Indicação: Ler o post abaixo abrindo, simultaneamente, os dois links, reduzindo um pouco o volume da música no Youtube.
         RainyMood
         Chippie Hill - Around The Clock Blues

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         No interior de seu quarto, quase sempre o seu mundo, ele vê e ouve a chuva escorrer em sua janela, caindo contra a luz artificial noturna e sobre poças d’água em seu quintal, criando pequenas ondas, uma após a outra. Não é forte além do suficiente para despertar a atenção e a tristeza. 

O cômodo não emana nenhum som, exceto o do blues em volume mínimo, onde não se ouve mais do que fragmentos de piano, trompete e um vocal feminino rasgado e melancólico; a percussão ritmada da bateria fora negligenciada, graças à fraqueza do som emitido pelos pequenos alto falantes acoplados ao tocador portátil, capaz de carregar a musicalidade – geniosa ou vulgar - de todo o mundo, distorcendo e retorcendo-a aos seus bel-prazeres. A luz do abajur é a única a iluminar o ambiente por dentro, produzindo sombras desproporcionais às habituais: a pequena garrafa de cerveja sobre o criado-muro obscurece quase todo o oeste, sobrando ao leste, de baixo a cima, as sombras da feição e a fumaça do cigarro, que, combinada aos devaneios de sua psique, transforma todo o ambiente numa nebulosa estelar. Ele sabe, contudo, que ali não nascerá nenhuma estrela. Recosta sua cabeça na parede, olhando à sua esquerda, para a janela.

Prontamente se reconheceu numa fotografia, numa cena de filme, em que o personagem pode tanto lançar um furtivo olhar amoroso em direção ao infinito, quanto tal infinitude pode receber olhos depressivos, pensativos; ele não pode se encaixar na primeira opção há tempos. “Há quanto tempo meu coração não arde?”, pensava, enquanto bebia de sua cerveja já quente, retomando todo o seu passado, incluindo os tempos onde pensou ter havido uma chama em seu coração, que depois veio a entender que não era nada além da mera reação a sentimentos alheios; “amei porque fui amado”. São olhos depressivos, que enxergaram o absurdo da vida, mas não querem dar nenhum salto, seja de fé ou de um penhasco. Na procura de um sentido para a sua existência e a de seus pares, a janela e a chuva tornam-se musas: “se podemos extrair algo sobre a humanidade, é essa a visão que tornará isso possível”.

Refletiu muito, fez uma viagem aos primórdios de nossa raça, lembrou parcamente dos estudos antropológicos, da época em que acreditou no homem como uma multiplicidade, composto de comunidades inteiras que se diferenciavam entre si, o que tornava a expressão “ser humano” uma falácia, já que somos e fomos muitos; revisitou a Grécia antiga, e teve seu raciocínio disperso na mitologia: da acrópole e as noções de democracia, foi aos mitos de Eros e Psique, de Orfeu e Eurídice, Sísifo, Ícaro, Teseu e o minotauro, Belerofonte, Ulisses. Mitos grandiosos, que o faziam acreditar no homem como o único ser capaz de fantásticos feitos, de sentimentos difusos e puros, de enfrentar o que está além do alcance, se reinventar. O que o resignou, porém, foi saber que tais ensinamentos possuem a mesma fragilidade da vida; repentinamente, tudo o que se construiu e se consolidou ao longo dos séculos pode erodir em questão de anos. (Uma vez esquecido, deixa de existir.) Ainda recostado à cabeceira de sua cama, de pernas esticadas e cruzadas, atravessou a noite olhando, de olhos semicerrados, para a, agora forte, chuva lá fora.


         Nota do autorEste é um texto que escrevi há cerca de 6 meses, e faz parte de um compêndio que intitulei Tratado da chuva na janela. A intenção é retratar os mais diversos sentimentos e/ou ações possíveis e como elas se potencializam diante da visão de uma chuva que cai na janela. É um texto que dedico atenção especial há um tempo, dado que esta visão é a que mais me inspira a criar; não à toa é o nome que resolvi dar a este espaço. Espero que tenham gostado, aguardo comentários.


domingo, 4 de setembro de 2011

Crônica de uma madrugada - Parte II

- Deixe que eu pago, Magrão. -, intervém a moça de cabelos negros e encaracolados, calça e jaqueta jeans, sentada de pernas cruzadas junto ao balcão; por baixo, uma camiseta branca estampando um muro.

- Vai pagar também pelo copo, então. E trate de levá-lo embora, Letícia. – disse Magrão, jogando a toalha sobre seu ombro e fitando-a, contrariado.

O rapaz volta seus olhos para a moça, consternado. Estava tonto demais para ter certeza se era realmente linda; naquele instante, era apaixonante. Ela sorri, fazendo com que seus dentes brilhem sob a luz púrpura do bar, escurecendo seu rosto, deixando à mostra somente o brilho de seu sorriso e de seus grandes olhos negros. Leva o canudo de seu mojito à boca e mantém os olhos em Rodolfo, que se mantém imóvel, hipnotizado por aquele olhar escondido em cachos que o intimidavam como nunca; sentia-se nu, dominado e com medo. Mas esse sentimento também lhe parecia familiar. Ela anda, mancando na perna direita, em direção à sua mesa, puxa uma cadeira e se senta.

- Me desculpe, sei que é falta de educação sentar em sua mesa sem pedir licença. Mas encare como uma recompensa por ter livrado sua cara. – e tomou mais um gole.

Rodolfo pensou em agradecê-la. Ao abrir a boca, contudo, emudeceu-se, e lembrou-se do velho orgulho misógino impregnado nos homens de quase todos os tempos:

- Não preciso que livrem minha cara. Mesmo assim, obrigado por me fazer beber este vinho sem me sentir culpado pelo digníssimo dono deste lugar. – e bebeu um gole, que encerra o argumento de cada um nesse diálogo inicial.

Ela olha-o de forma condescendente, com um leve sorriso; ele desfaz-se diante de tal expressão, ao mesmo tempo em que reflete sobre a benevolente natureza feminina: acabara de conhecer (ao menos, é o que sua lembrança imediata lhe diz) aquela mulher que lhe pagou uma garrafa de vinho, livrou-o de uma bela surra, ouvira sua grosseria e agradecimento irônico e ainda lhe dirigia um belo e puro sorriso. Sentia-se constrangido, e ela sorriu ainda mais.

Ela bebe mais um gole, puxa-o pela mão, deixa-o na pequena pista em frente a Jukebox e pede para esperá-la, enquanto vai até a máquina escolher uma música. Ele a vê apoiada sobre a máquina que ilumina sua feição, seu rosto rosado e olhar ansioso, como o de uma criança em frente a uma máquina de doces ou de brinquedos; seus longos cachos caídos sobre sua jaqueta embelezam ainda mais aquela misteriosa mulher. Restava ter bom gosto, mas sua vestimenta a credenciava a tal, principalmente sua camiseta de muro. O sorriso demonstra que a música fora escolhida e ela retorna à pista, correndo em passos curtos.

- Veja se o que você verá agora não é familiar. – completa, antes que a música comece a tocar.

Learning to fly  explode dos altos falantes e ecoa nos ouvidos de Rodolfo; a moça ergue os braços em posição de Cristo – com o mojito em sua mão direita -, deixa a cabeça cair para trás, fecha os olhos e sorri como se recebesse uma chuva torrencial em um dia quente. Seu corpo balança e rodopia com a melodia e suas mãos viajam por seus cabelos e curvas, e seus olhos procuram os do pobre rapaz bêbado e hipnotizado que a olhava naquela pista, enquanto o resto do bar os ignora. Num último e grande gole, finaliza seu coquetel, avança à mesa logo atrás de Rodolfo, que permanece imóvel; ela curva levemente seu corpo sobre o dele, alcança a mesa com seu braço ao lado do dele, larga o copo e aproveita o movimento para pousar os braços no pescoço de Rodolfo, que sorri, leva suas mãos à cintura da moça e percebe-se deslumbrado não só por ela, como também pela familiaridade da cena. Ela apenas olha-o e sorri.

- Seu nome é mesmo Letícia?

- Sim, o Magrão não é de esquecer nomes, principalmente dos que vem aqui há bastante tempo.

Rodolfo volta seus olhos para o balcão e percebe que Magrão os observa, sem a cólera de instantes atrás. Tudo convergir para a felicidade não era algo do qual Rodolfo estava acostumado, e isso o perturbou por um instante; seus olhos voltaram para os de Letícia, e ele tentou buscar sua alma através dessa janela; imagens difusas, ininteligíveis, vieram à sua mente. Traziam, entretanto, imensa paz de espírito. Ele então colou seu corpo junto ao dela;  ela cerrou seus olhos, deixou-se conduzir pelo rapaz que não perdeu a oportunidade e a beijou. De olhos fechados durante o beijo, viu-se com ela em tantas outras situações que julgou amá-la de imediato; o hálito, o modo como a língua dela encontrava com a dele, os corpos encaixados, a viagem sonora que rompia com qualquer racionalidade possível e o fervilhar de sangue em todas as partes do corpo fizeram-no entender a inscrição no banheiro. Ao término do beijo, sorriu e disse:

- Letícia, uma pessoa veio até aqui e fez uma lamentável declaração para você na caixa de descarga do banheiro. Mas posso dizer que entendo porque ela a ama.

- Claro que entende: é você quem me ama. – disse ela, laconicamente.

(Continua)

sábado, 27 de agosto de 2011

Crônica de uma madrugada - Parte I

“Ah, foda-se!”, foi o primeiro (e único) pensamento de Rodolfo ao ser expulso daquele bar às 3 da madrugada, por flertar com uma mulher casada e, com isso, se meter em uma briga com o marido – fraco, mas cliente antigo e cheio de privilégios. Entrou no bar uma quadra abaixo e reconheceu a pouca iluminação da maior parte do ambiente contrastando com a luz forte à sua direita, sobre a prateleira de bebidas organizadas em ordem alfabética; à sua esquerda, uma mesa de bilhar mal cuidada e com duas bolas 8. À sua frente, na parede ao lado do banheiro, um antigo calendário pornográfico. A folha era ainda a de Julho, mês de inverno, e uma loira vestindo Ushanka preenchia a página já manchada pelo tempo. Uma boa motivação para ir ao banheiro.

Algo dizia aos seus sentidos que já tinha estado naquele lugar. A porcelana quebrada, a luz instável - mais tempo apagada que acesa -, a caixa de descarga acionada por cordinha com a inscrição “Letícia, eu te amo”, a foto de John Lennon colada no teto, o modo abafado como o som das risadas vindas de fora entravam, o espelho quebrado; tudo lhe era familiar. Um vestido vermelho, deixando escapar pernas que usavam uma meia-calça escura, veio à mente enquanto mijava. Déjà-vu? A lembrança era vívida demais para tal. Olha-se no espelho enquanto lava as mãos.

- Seu bêbado louco. – E a luz se apaga para não mais acender. Tateia pelas paredes, reconhecendo o aquecimento em um determinado ponto. Na certa, deve existir um grande forno do outro lado; “hum... mas lá não está tão quente quanto aqui”, sua mente sussurra e sorri, em voz feminina. Uma mordida em sua orelha. O vestido, que desnuda ombros brancos e de pele delicada, volta a aparecer em um flash; ele se apóia mais forte na parede aquecida, contrai a mão restante, sentindo a poliamida que cobre pernas grossas, fazendo-o ter uma ereção. Respira forte, fecha os olhos e se entrega à sensação: sente o cheiro de um perfume, que contrasta a suavidade de um aroma levemente doce com a embriaguez provocada por um bom porre de vinho. Um perfume masculino numa pele feminina: um gracejo que mostra que qualquer essência cheira melhor num corpo de mulher.

Sai do banheiro e senta-se em uma das poucas cadeiras restantes, próximo à rua e de frente para a porta de onde acabara de sair. Vê as pessoas entrando e saindo e, submerso em seu entorpecimento, se diverte em pensar nas razões de cada uma delas. Pede uma garrafa de vinho, mas lembra-se, na metade dela, que já está sem dinheiro. Levanta-se, bebe um pouco, devolve a garrafa à mesa, olha para o homem no balcão com um pano branco em seu ombro esquerdo lavando copos, franze a sobrancelha, estende as palmas das mãos e encolhe os ombros.

- De novo, seu filho da puta?! -, grita o dono do bar, que fecha a torneira e avança furiosamente contra o rapaz. Pega-o pelo colarinho e puxa para perto de si com tanta força, de modo a deixar claro que ele não sentirá a menor piedade por aquele pobre rapaz bêbado, incapaz sequer de assimilar um soco e permanecer de pé. Percebe também que poderia sequer lembrar o que aconteceu; bater nele poderia ser inútil e desagradável de se ver. Atira-o contra a parede próxima à saída e joga, brutalmente, a jaqueta de couro presa à cadeira onde Rodolfo sentava-se. – Se voltar, vou garantir que seja a última vez.

Rodolfo não tem força para se mover. Joga a cabeça para trás até encostá-la na parede e olha para o teto. O mundo se contorce. Gira a cabeça para enxergar a saída, percebe o movimento na rua que fervilha em plena madrugada e imagina o quanto ainda podia se divertir lá fora. Espera o dono se afastar, volta seus olhos para a mesa e avança em direção a ela. Sorri o sorriso dos insolentes e diz ao dono:

- Bem, nesse caso, a garrafa vem comigo.

Um copo voa e se estilhaça na mesa, cortando o braço do rapaz, que percebeu não haver meios de escapar daquela luta. O bêbado pensou ser um tremendo provocador; ou o dono daquele bar tinha o pavio muito curto; de qualquer forma, ambos pareciam gostar de uma boa briga. Contudo, Rodolfo tinha fome, estava cansado e tonto, o cheiro de sangue era forte e um mal-estar súbito o atingiu, diante da iminência de ter seu corpo atirado na rua. Apoiou-se com a mão esquerda na mesa e cerrou o punho da direita, com o coração disparado e olhar turvo, esperando pela surra.

(Continua)

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Nota do autor: Faço, neste blog, um novo experimento: uma história dividida em partes. Como sempre, vem a ideia de um tema e em seguida a prática - a abstração para a objetivação. Mas o processo criativo não é algo que se preveja nem se molde; os dedos e palavras fluem conforme o rio de nossas mentes. Dessa forma, este é um conto que está em andamento, e, para não publicá-lo de uma vez, num tamanho despropositado ao conceito deste espaço e à paciência de muitos leitores, divido-o em doses homeopáticas, aguardando comentários. Mesmo que seja para o caso de dar uma mudança de rumos ao que já está feito.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Uma dinâmica e duas Rebecas

Pablo acordou cedo, vestiu sua melhor roupa, encarou frio e trânsito rumo a uma entrevista de emprego. Nunca teve muita paciência, nem concorda com as tais dinâmicas; mas bem, é assim que contratam hoje em dia, e ele não pode fazer muito além de se submeter.

Atravessa a cidade esmagado no transporte público, mas de bom humor. Afinal, havia boa música em seus fones de ouvido e ele estava otimista em relação ao trabalho: era simples, temporário, ficava perto de onde era realmente importante estar. Bastava para ele dispender de 6 horas diárias, seis vezes por semana. Parecia um bom negócio.

Entra na empresa e é recebido com um sorriso pela selecionadora, chamada Rebeca. Lembrou-se da época que fez teatro e da Rebeca que quase arrancou sua virgindade. Ela atirava-se e ele, extremamente tímido e ingênuo, não entendia suas indiretas. Até que um dia ela o agarrou e o levou para o camarim, sentou-se na mesa, abaixou a calcinha e ergueu a saia; Pablo concentrou-se demais nos beijos e, com isso, logo ouviu vozes que se aproximavam. Ele estava atordoado, de pernas trêmulas, mas achou ter encenado bem um disfarce. Os sorrisos maliciosos que lhe eram dirigidos, porém, logo o demoveram da ideia. Esperava o primeiro e único amor, e o que Rebeca tentava fazer com ele lhe parecia imoral, sem sentido. Nunca mais se encontraram.

De qualquer forma, lá estava outra Rebeca, baixinha e ruiva, tal como a outra. Pablo retirou a folha de cadastro e agradeceu com um sorriso, que lhe foi retribuído. Ele riu do seu eu adolescente, como muitos fazemos quando pensamos no puritanismo que tínhamos em nossa essência (muitas vezes um riso melancólico). Será que aquela Rebeca iria querê-lo, agora que já era outro?

A folha de cadastro vinha com um pequeno teste anexo; “uma ode à ignorância”, ele pensou. Preencheu rapidamente e aguardou os outros candidatos terminarem. Temia que a demora o impacientasse e ele expusesse maus hábitos, como tremer a perna e roer a unha. A imagem numa dinâmica deve ser impecável; inclusive nossos defeitos devem ser, de alguma forma, úteis ao trabalho. Muita gente se atrasou, e ele se perguntou se Rebeca gravaria aqueles rostos e descontaria pontos. Parecia ser o mais justo a se fazer, mas nada indicava que o seria. Bravejava e estava ansioso, mas tinha que esperar.

Todos terminaram e a selecionadora demandou mais alguns minutos, para corrigir todos os testes. Pablo olhava em volta, e se achava em perfeitas condições de competir e ganhar de todos que ali estavam, não porque os desmerecia, mas porque estava, acima de tudo, confiante.

Rebeca enfim terminou, e resolveu falar sobre a “oportunidade”. Ele achou estranho ela não falar emprego, vaga, trabalho, etc. Se ela qualificava assim o trabalho, ou estava supervalorizando-o, ou realmente era algo excepcional. Pablo já conhecia o mercado, e sabia que logo viria um problema. Ela falava da empresa – uma tal de BRT -, que estava no mercado há 10 anos e era uma das maiores e mais generosas, com auxílios excepcionais, grande oportunidade de crescimento a partir de 4 meses de trabalho e coisas que ele já não mais se importava; Pablo entendeu que todos ali seriam explorados. Quando ela falou do desconto do vale-transporte e disse que era de “6% sobre o salário que vou falar daqui a pouco” e tratou de voltar a elogiar a empresa, ele já se achou numa perda de tempo. Mas não seria grosseiro enquanto não ouvisse o valor.
    
       -   O salário que oferecemos para o cargo é de três-dois-cinco -, ela disse.


       Pablo percebeu: ela sabia que era uma exploração. Dizer os números um a um e não juntá-los num único número cardinal era um interessante estratagema para não mostrar quão baixo era o salário. Uma moça prontamente se levantou e disse:
    
       -   Desculpe, mas esse valor não me interessa.
    
       -   Bem, então você e quem mais pensar a mesma coisa pode sair -, respondeu Rebeca.

Cerca de oito pessoas levantaram, e o processo seguiu, com os que sobraram disputando ferozmente aquela vaga que, se para outros não era nada, para eles talvez fosse tudo. Uma apresentação em público, uma separação em dois grupos, onde um tentaria ganhar do outro numa argumentação, um vídeo corporativo que mostrava a grandeza da empresa e o quão grande os candidatos podiam ser se permanecessem fiéis àqueles que estão dando aquela oportunidade. Em seguida, uma pausa para um lanche, uma ida ao banheiro e um merecido descanso para Rebeca. Ao fim do dia, alguns daqueles estariam sorrindo por terem conseguido agarrar aquela oportunidade. Mas não Pablo: ele não queria ser novamente abusado por uma Rebeca e estava dentro do grupo dos oito.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Foto

Estava diante da mais bela imagem, jamais captada antes. Seria a lente de uma câmera capaz de fotografar o sentimento por trás daquele rosto? Seria capaz de captar o calor e o ofegar daquele corpo timidamente retraído embaixo do lençol? Dizem que a grande fotografia de pessoas é a que transpõe ao observador o sentimento da pessoa fotografada. Parece evidente que a totalidade das emoções não pode ser retratada, ainda mais estas sendo tão conectadas ao contexto; quanto mais próximo for, entretanto, melhor a foto, e mais tocados seremos.

Aquela imagem não fora captada por nenhuma outra lente senão a ideal: os olhos. Olhos que são parte daquela grande máquina repleta de sentimentos e interações, que distorcem a imagem que é vista. Isso não é, de modo algum, uma coisa ruim: e se tudo o que queremos e precisamos são estas distorções? O céu se torna mais azul que o normal, o brilho do olhar é mais intenso, o sorrir da criança é ainda mais puro, a piada é mais engraçada, o respirar nos torna mais vivos, o banho de chuva sublima corpo e alma, o acariciar um animal nos integra à natureza, a música arrepia o corpo... Que o mundo se distorça!

A máquina fixa sua lente no rosto, que reage aos olhares. A máquina fecha os olhos e mentaliza a imagem que acabara de captar; aquela era a que seria guardada pelo resto da vida. Bastaria um fechar de olhos, um segundo de pensamento e lá está ela, perfeita em dimensão, contexto, cenário, luz e sentimento. A espinha que salta à testa está ali somente para dizer à máquina: “sim, ela é real. Guarde-a!”. A máquina sorri e a imagem retribui com um olhar brilhante, mas de dúvida. Ela então ouve:

- Sabe, o que estou vendo agora é melhor que qualquer foto que poderiam tirar de você.

         - E por que não tirou uma?

A máquina deixou de sê-la. Refletiu sobre a pergunta.

- Uma foto não entenderia o que vi.

E nem as palavras. Falar do calor que a aqueceu de repente, dos olhos que lacrimejaram e da boca que sorriu é tratar do que aquela ex-máquina sentiu em seus sintomas, não em essência. Ela viu, sentiu, captou e guardou. E, infelizmente para nós, somente ela é capaz de ver e sentir novamente, num simples cerrar de olhos.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Claire de Lune

O celular toca. É ela, me pedindo para olhar a lua desta noite. “Está linda!”, li, enquanto tentava procurá-la sobre minha cabeça em meio ao centro da cidade. Tive que prever com certa antecedência o tempo em que poderia olhar para cima, de modo a não trombar com ninguém enquanto andava. Tarefa difícil, se tratando daquele mar de gente. E a lua não estava lá.

Adentro o subterrâneo do metrô. Nos fones, Beethoven e sua sonata dedicada ao luar; na mente, a imagem da lua, que ela me falara com tanto entusiasmo. Tínhamos visto-a poucas horas atrás, quando invertemos os papéis: eu voltei os olhos aos céus e apontei em direção a ela; “Veja, que linda!”. Será que está do mesmo jeito ou ficou ainda mais bela? Ou será que o olhar entorpecido pela magia de nosso encontro fez com que ela a visse mais bonita? As estações passam, a sonata chega ao seu terceiro (e mais espetacular) movimento, e ainda estou preso ao subterrâneo, com o sonho de ter todo o céu a meu dispor, e a lua... Ah, ela seria toda minha!

No caminho entre a estação e minha casa, nada dela. (“Por que ela é capaz de vê-la e eu não? Há algo errado comigo ou com as casas e coisas ao meu redor?”). Chopin embala meu trajeto com seu segundo noturno, em passos flutuantes. O corpo está arrepiado, apesar de sentir calor; o calor que nos move ao desconhecido, ao salto de fé, a conceder uma chance ao novo, se arriscar no inabitável. O céu está limpo, o vento bate em meu rosto e as notas do piano formam um mosaico do rosto dela em minha alucinação. (“Por que não aparece, lua?”). Pego o telefone.

- Não vejo a lua!

- Que pena. Ela está minguante, tal como a vimos mais cedo. Mas está amarelada, com um brilho intenso ao seu redor; um sorriso dourado!

Era a imagem perfeita para aquele fim de noite. Vagueio pelas janelas de minha casa em busca dela; não podia suportar a ideia de que o mundo era capaz de vê-la e eu estar renegado a somente ouvir dizer sobre seu formato, com o que se assemelha,  porque muda o tempo todo e, principalmente, como nos sentimos a respeito de tamanha instabilidade.

Não a encontrava. 

Restava-me, então, a resignação de algo que parecia destinado aos outros; só poderia conhecê-la através das fotos, imagens e canções dedicatórias. Debussy, com sua Claire de Lune, embala minha melancolia. Até o momento em que a gata negra sobe na janela, mia em minha direção e eu atendo seu chamado. À sua direita, um clarão dourado atrás das casas. Recosto-me na janela e percebo, de soslaio, a presença da gata sentando-se ao meu lado. E surgem os violinos, que glorificam minha visão: a lua está ali, atrás daquelas pequenas construções. Não vejo seu formato, não sei se é como me foi dito; eu poderia vê-la diferente – poderia ser igualmente bela, no entanto. Mas o brilho que irradia, o modo como me aquece e a paz que me traz são as únicas coisas que realmente importam neste momento.