domingo, 11 de dezembro de 2011

As mentes deles ainda estão naquele mar

       Uma tempestade cai sobre meu teto, e uma água enlameada começa a adentrar pelo chão. “É o fim”, Vítor diz, enquanto abre com pressa sua mala e enfia todos os seus pertences com desespero. Pedro percebe uma leve queda da cobertura no lado esquerdo, consequência de um ferro de base que se desprendia com a chuva encharcando a terra. Nossa barraca precisava de maior firmeza, ou nossa viagem estaria arruinada. Vitor volta a reclamar, contando-nos do quanto se arrependia de ter trazido seu celular caríssimo e seu livro favorito que em breve seriam corroídos pela iminente presença da água. Era um chapado pessimista. 


- Cale a boca e me passe a lanterna -, disse eu, um chapado direto e grosseiro.

Ele me passou a lanterna, liguei-a e coloquei na boca, levando todos a um surto de gargalhadas. Ao que parece, o modo como encaixei a lanterna em minha boca era o de alguém com grande experiência em assuntos do tipo. Mandei todos à merda e saí para fixar a barraca e salvar a maldita viagem. Já estava de saco cheio de vê-los bolar e fumar o dia inteiro e morrerem durante a noite. Sempre gostei de uma sesta, e eles tornavam-a impossível com suas gargalhadas sem razão em pleno dia. Por outro lado, era melhor assim; se nesta viagem eles fizessem isso somente em frente a uma fogueira, durante a noite, eles pensariam demais sobre a vida que fugíamos.

A chuva caía lateralmente, muito forte e me atingia como lâmina que me cortaria por inteiro se demorasse ali; era preciso ranger os dentes para manter a lanterna em minha boca, tamanha a dor que sentia. Sobre o ferro que sustentava a barraca, uma enorme poça de água gelada e enlameada; na posição em que estava, não tinha força para afundar o ferro o suficiente para não ser levado pela água que caía. Ajoelhei-me na lama.

- Vejam o que faço por vocês, filhos da puta! – até hoje quero entender porque estava tão enfurecido. Sempre gostei de tomar banho de chuva. Acho que quando estamos chapados, não somos nós mesmos.

O problema foi resolvido e a barraca voltou a ficar firme. A chuva amenizou também e eu voltei a ouvir o som do mar. Felipe estava em frente ao fogão improvisado, com uma garrafa de batida de maracujá à mão e olhos fixos na brasa que ía se esvaindo. Parecia deprimido. E eu fiquei com um incrível bom humor logo em seguida, mesmo que Bernardo tenha gritado comigo para não entrar molhado e sujo daquele jeito na barraca. Eram quatro homens numa maldita barraca e ele cobrava-nos limpeza.

- Ok, então me dê um trago.

- Toma. Mas vá lá fora, senão fica fedendo por aqui e eu não consigo dormir. - Normalmente eu o mandaria à merda, mas Bernardo parecia desanimado assim, de longe, e eu esperava que o que eu levava comigo o animasse.

Para minha surpresa, assim que toquei seus ombros, ele olhou para mim e foi muito receptivo, com um largo sorriso e muitas histórias íntimas bacanas - de certa forma, as duas coisas parecem sempre andar juntas - para contar. Descobri, depois de anos de amizade, que ele era do tipo chapado melhor amigo; ou então a viagem que o transformara. Lembrávamos dos adolescentes puritanos que éramos e nos divertíamos com a mudança. Cinco anos atrás sequer bebíamos e lá estávamos nós, em frente a um fogão à lenha improvisado, cheios de entorpecentes no corpo, gargalhando como nunca juntos, mas sabedores que éramos muito mais felizes em nossa adolescência. Agora só fugíamos.

O estado alucinado e solícito de Bernardo deu-lhe uma ideia: sugeriu que corrêssemos na chuva e nos jogássemos no mar. Era 10:30 da noite de um sábado qualquer de inverno, e lá estávamos nós, correndo como loucos em direção ao mar. Minha mente corria mais que meu corpo, o que fez com que eu caísse de cara na areia e rendesse grandes gargalhadas, minhas e do Bernardo. E, como a dor era menor que o êxtase, logo levantei e voltei a correr como antes em direção ao mar, que lançava suas ondas, como feixes de luz branca em meio à escuridão no horizonte. E a chuva, que vinha na direção contrária, cortava nossos corpos mas não mais nos incomodava; éramos partes daquela natureza, e se fosse para sucumbirmos diante dela, que fosse!

A água do mar estava deliciosamente morna, contrastando com a gélida que caía dos céus, e um vento que quase congelava-nos a face. Submergirmos era, portanto, a melhor solução. E que sensação quando a cabeça saía da água!

Numa dessas vezes meus olhos se abriram em direção aos céus e, pela primeira vez no fim de semana, vi a lua. Escondida entre as nuvens carregadas, surgia; estava cheia e fantástica! Permitia que víssemos melhor a praia, as árvores dos rochedos na penumbra, o seu reflexo na água onde estávamos. Isto, somado à chuva que já não era mais tão intensa nem tão gelada, fez com que nos sentíssemos, eu e Bernardo, donos de todas as melhores sensações da humanidade em todos os tempos. Não sei ao certo quanto tempo parei – e fui ninado pelo mar - para olhar a lua, mas certamente ali se condensou toda a eternidade.

Bernardo quis nadar para o fundo, mas eu só estava anestesiado, não louco; queria preservar, a partir daquele instante, o máximo de minha vida. Senti que a sensação única daquela noite devia ser carregada o máximo possível dentro de minha alma. Agora aqui está, finalmente perpetuada.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Capítulo de um livro não escrito ou de como se apaga o mundo

E o vento trouxe o frio. Também com ele, a trágica notícia.

Muito embora queira acreditar na não existência desta, sempre soube que este dia chegaria. Afinal, assim são as coisas, acontecem. Não somos quadros ou fotografias, somos algo além. Não deveria fazer frio hoje. Não é a época para tal, mas nunca sabemos para onde o vento irá soprar, não é mesmo? E se soubéssemos, faria realmente alguma diferença?

Apesar de agasalhado, com frio estou. Parece até que este é inevitável e sempre passará pelas frestas mais minúsculas que nem sequer parecem habitar os corpos e coisas, mas habitam. Assim são as coisas. Assim é o mundo. Agora me ocorreu o pensamento: Teria sido a morte dela que ocasionara a súbita mudança, que teria causado tal vento e o que nele é carregado?

Por certo este ambiente combina com tudo isso, não? Que mais poderia acompanhar a tudo, senão um dia nublado e gélido, em pleno verão? Pois é... sei que isso não é nada além de asneiras. Pura divagação sem sentido e falsa em sua mais profunda origem, em sua raiz.

Mas sei também que a raiz deve brotar e ir para algum lugar, qualquer que ele seja. Mas para onde? Gostaria de saber. Tal vontade deve fazer de mim um curioso, não? De qualquer modo, já disse que isso não deve fazer diferença. O vento sempre sopra e o horizonte sempre insiste em sua teimosia: o de nunca ser alcançado.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Sobrevida

      Finalmente, o dia de minha liberdade! Já estou encarcerado há tanto tempo que não sei mais como é sentir o ar da cidade, da beira do mar, do conforto de um quarto. Bem, de qualquer forma, acho que jamais saberei o que é sentir esse ar, já que o que tenho são só lembranças, imaginações. A realidade sempre sempre esteve aquém do mundo criado em minha mente inquieta e esquizofrênica. Hoje, às 17 horas, irei experimentar o sabor da real liberdade e serei, então, capaz de compará-la ao meu mundo imaginário.

Suponho que ela seja entediante, exatamente como a vida que tenho aqui. Estarei encarcerado também, embora de uma forma diferente. Mas acredito que o momento da passagem, esse sim, será o momento mais especial de minha vida. Às 17 horas, lá estará uma família  aliviada, esperando pela minha tão aguardada liberdade. Conforme os meses passavam e a data de hoje se aproximava, eu ficava cada vez mais ansioso, inquieto, torcendo e vivendo pelo futuro; há dias, contudo, que finalmente meu coração está tranquilo, aguardando pacientemente pelo momento, desfrutando cada último momento que estarei aqui, relembrando todas as figuras que encontrei nas úmidas e rachadas paredes e me despedindo dos guardas que, se não foram de todos cordiais (afinal, estão aqui para nos punir e não nos gratificar), foram respeitosos, na medida do possível.

Também despedi-me dos amigos que ainda restavam. Aqui na prisão, ou você se torna livre rapidamente, se corrompe a ponto de não ser mais confiável ou é morto. As exceções – e acredito que eu seja uma delas – são os que conseguem, depois de muito esforço, aceitar este lugar como sua morada e, assim, tentam tornar a vida aqui o menos horrível possível. Entre estas pessoas, há uma verdadeira amizade, embora eu não pretenda saber mais nada sobre eles a partir do instante que deixar este lugar. Que cada um siga seu caminho.

Ao sair daqui, o que mais quero é abraçar minha mãe. Filha de um viciado em cocaína e de uma desleixada histérica com irmãos pedófilos, esta mulher sofreu os maiores abusos possíveis que uma pessoa poderia sofrer durante uma infância e ainda assim tentou dar-me um pouco de dignidade. Infelizmente, a psicanálise estava certa e ela se envolveu com homens com os mesmos problemas de meus avós e tio-avós. Durante minha infância, lidamos com viciados que pareciam sentir gosto em nos agredir e cheios de desejos sexuais perversos. Não pude manter a dignidade como minha mãe e, como uma bola de neve, comecei com um assalto e, meses depois, já fui capaz de um latrocínio. Sei que sou um dos poucos, mas aqui foi o lugar onde pude obter certa dignidade, e isso eu devo muito ao maestro que ficou por aqui por dois anos, lecionando-nos música e estimulando o contato com a leitura.

15h40: me trouxeram uma roupa, pediram pra eu vestí-la e aguardar que me buscassem. Perguntei se a família já estava lá fora e se estavam ansiosos.

- Claro que estão! Chegaram aqui de manhã e mal podem esperar para vê-lo. Agora vista-se e espere que daqui meia hora viremos te buscar.

Vesti-me e aguardei, silencioso. Ouvia, bem ao longe, gritos de despedida dirigidos a mim. Quaisquer que sejam as circunstâncias, é bom saber que sairá de um lugar fazendo falta a ele.

Meia hora depois, como prometido, vieram me buscar. Botaram-me as algemas e me carregaram pelo corredor. Tentei dissuadí-los da ideia da necessidade das algemas, que muito me incomodavam, mas eles, laconicamente, responderam que “são as ordens”. Dez minutos de caminhada, entre o abrir e fechar de grades e os passos rituais e coordenados dos guardas, com um barulho de passos e do molho de chaves que eu havia me esquecido mas que neste instante me era insuportável. Finalmente, a última porta, onde eu encontraria minha liberdade. Paramos em frente a ela, aguardando que alguém a abrisse, mas nada; na sala ao lado, gritos desesperados. Os guardas se separam e um deles vai até a porta ao lado: é onde está a família que me aguarda. Do lado de cá, o que estava comigo abre a porta à nossa frente. Então parece que o homem de branco aplicou a injeção em si mesmo. Permaneci silencioso, mas passei a acreditar que não haveria mais execução. O guarda na sala ao lado volta correndo e pede para eu entrar. Talvez a família que lá estava me executaria com as próprias mãos.

Poucos minutos depois, descobrimos que o mundo acabaria às 17h15. A liberdade viria para todos, afinal.. Não me pareceu justo: eu tive tempo para me preparar e aceitar minha liberdade, mas o semblante dos guardas ao meu lado era para mim a demonstração de que ninguém mais queria o mesmo destino. Eles decidiram partir para ver se conseguiam se despedir das próprias famílias. Os alto falantes alertavam a todos os guardas sobre a presença de uma multidão lá fora querendo entrar para se despedir dos entes trancafiados aqui. Obviamente, todos abandonaram seus postos, todas as grades foram abertas e o último contato se concretizaria. Em pouquíssimos minutos, não havia mais sequer uma pessoa ali, exceto eu e a família que tanto aguardava por minha morte, abraçados uns aos outros aos prantos, na sala ao lado. Desistiram da ideia de fazer justiça com as próprias mãos, e pela primeira vez lamentei profundamente a consequência do meu ato.

Eu voltei para minha cela. O caminho, que na ida levou dez minutos, na volta foi feito em não muito mais que três. As grades atrasam nossas vidas mesmo. Pelo caminho, vi que o relógio marcava 16h55. Ou seja, a hora em que estava planejada a minha liberdade, continuei encarcerado. Mas isso seria só por mais um breve instante; ganhei uma sobrevida para relembrar as figuras nas paredes úmidas e rachadas e fiquei grato por isso.

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Este é um texto escrito para O Livro do Fim do Mundo, seguindo a temática sugerida por ele. Lá, é possível votar e classificar esta história.  Quem quiser e puder, agradeço muito!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Apresentação do Caio + "Todo"

Olá a todos,

Como começar? Bem...devo dizer que o Sr. Raul estava fazendo bullying comigo para que eu escrevesse logo, com direito a ameaças de morte inclusive, que fique registrado. Por tal motivo, estou cá escrevendo, antes que roubem a minha vida e para que vocês saibam :) Sou o Caio, uma das pessoas que o Raul convidou para colaborar com o Blog. (Ok. A ameaça de morte era mentira, foi um convite)

Bem... vou me apresentar rapidamente e dizer porque eu aceitei escrever aqui.

Realmente admiro o trabalho do Raul e julgo que ele é um grande escritor, não só pelo seu estilo e habilidade em abordar determinadas coisas, como pelas próprias temáticas em si que ele aborda, que me agradam muito. Acredito que tanto ele quanto as suas personagens (não que eles sejam o mesmo e nem que não o sejam) tenham alguma proximidade e compatibilidade comigo e no modo como eu enxergo as coisas a minha volta. Pensei em recusar o convite, porque estou sem tempo no momento e nem tenho o mesmo estilo e nem sou tão bom escritor. Contudo, de vez em quando também tenho meus "lampejos de genialidade", que se não são tão geniais assim, talvez, possam colaborar de alguma forma, passando alguma mensagem relevante e/ou permitindo alguma reflexão que valha a pena. No mais, faz tempo que eu queria criar um blog (algo que eu pretendo fazer em breve, assim que organizar melhor a minha vida) e essa é uma boa chance para incentivar a mim mesmo. É a primeira vez que eu posto em um blog.

Bem... chega de falar. Fiquem com um pequeno texto que eu escrevei em 2006. Espero que agrade.

Abraços,

Caio



TODO

A tinta, ela não é a mesma, nem você é o mesmo. Você pode olhá-la e perceber que você mudou, e que ela mudou. De repente, a partir de algum fato, isso modifique completamente a sua visão e consequentemente o objeto em questão, ou seja, na sua concepção o objeto mudou, ou você. Talvez os dois. Talvez estivesse tudo lá, mas não era possível o entendimento, porque estamos acostumados a ver partes do todo e muitas vezes as partes superficiais, não os detalhes, aqueles que ninguém vê, mas que são fundamentais para entender o Universo. Não basta conhecer todas as partes, você tem que entendê-las, como elas se ligam, como elas se misturam. Observe, sinta e entenda.

Se você conhece a parte de um todo, é possível que você afirme que conheça o todo?

Não, porque o todo é tudo que está no todo e você só enxerga uma parte. Se você enxergasse todas as partes, você conheceria o todo? Não, pois o todo não tem partes. Você acaba de dividir o universo! Você acaba de se dividir. Olhe para estas tintas dentro de seus confortáveis compartimentos de plástico, não é maravilhoso? Você consegue distinguir todos: Azul, verde, vermelho. Você os entende, não é? Que bom...

Olha, as tintas sumiram! Hey, pintaram um quadro com as minhas tintas! Eu as conhecia, eram tão boas, porque tinham que ir embora? Não sei...

Mas esse quadro é bem bonito. Mas esse quadro são as minhas tintas! Lógico que são, está ali, você não vê? Estão misturadas, continuam sendo as suas tintas. Olhe para o quadro, amarelo, azul, verde, vermelho. Você têm que entender o todo, o que nunca deixou de ser. Mas tem amarelo ali?!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Acorrentado

   O peso da corrente, o bico seco, a fome de liberdade...

   “- Sirva-me ou deixe-me caçar!”

   Nunca respondem! Obcecados com seus instrumentos cirúrgicos em mau estado. Não quero me tornar um suvenir vazio e adornar uma estante empoeirada e mórbida. O Sol, o frio, as grades... Meus olhos fitam o horizonte desde que cheguei aqui, mas o limite da corrente é o mesmo da minha existência.

   - Maldito taxidermista! Você precisa entender que a beleza não existe sem o brilho nos olhos. Mas quando for empalhado, minha alma estará livre, e assim poderei voar.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Gota

Como uma gota de orvalho. Me faço um amontoado de partículas, me torno a grande gota pequena, tento ser salgado, doce, amargo e azedo. Mas sempre estou da mesma forma. Escorrego como num tobogã e tenho sensações fantásticas vezes lá em cima, vezes ca embaixo sempre oscilando pela vida e indo de encontro ao chão.


Não quero ser chuva, nem granizo, tampouco neve. Parar em um mar de emoções ou lago de limitações nem pensar! Não preciso estar fadado ao chão. Depois de acariciar as belas frutas e seus adereços, quero evaporar, viver em sonhos loucos, pra finalmente ser inspirado pra dentro do todo de tudo.

                    
                                                                                                                         Rafael Mourão

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Este espaço agora tem uma pequena mudança. Gostaria de conseguir escrever com a frequência que planejei quando o criei, mas o ritmo das coisas me impede de cumprir este objetivo, pelo menos por ora. Desta forma, pedi encarecidamente a dois de meus amigos, Caio Eugênio e Rafael Mourão, conhecedor de seus dons para a escrita, que me ajudassem a manter o espaço com a maior atividade possível.

Acima, o texto de estreia do Rafael. Segundo ele, “uma apresentação para o blog”. Seja muito bem-vindo. E a vocês, leitores: desfrutem!

sábado, 19 de novembro de 2011

Distúrbio


Daqui de cima tudo é tão bonito! Essa vida eu viveria sem nunca me cansar. É engraçado entender o porque da analogia das ruas da cidade com as artérias do corpo humano; de fato, as pessoas e carros correm como sangue neste grande organismo.  À margem disso, algumas gorduras espalhadas: os mendigos, encrostados, “descartáveis urbanos”, como li um dia durante minha graduação. Evidente que havia um enorme tom de crítica na expressão, e eu não posso deixar de concordar que ela é, ao mesmo tempo, absurda e verdadeira. Mesmo assim, é curioso notar como eles se posicionam em meio ao emaranhado de gente: são as formigas feridas que não serão amparadas pela colônia. A semelhança com elas acaba aqui, entretanto; não há o mínimo de organização nesta população. Eles desviam-se, trombam-se, uns sentam-se enquanto outros correm desesperadamente olhando para o relógio ou atrás de um ônibus. Bandos inteiros param para observar a loira de vestido vermelho que transita graciosamente pela praça, sabedora de seu charme. É possível ver tudo isso daqui.

E também reparo que ninguém olha para o alto. O céu não é apreciado em meio a tantos prédios. Mas daqui, onde não há esse limite, percebo o quanto os de baixo perdem. Perder-se na imensidão azul e branca por uns instantes provavelmente acalmaria muitos corações e mentes. Eu mesmo talvez não precisasse estar aqui neste instante se tivesse olhado pra cá algumas vezes.

Pingos d’água começam a cair, contudo. Por este motivo, muitos olham para cima, e notam minha presença. Ou melhor, provavelmente notam um par de pés pendurado à beira do topo do edifício. Gritos histéricos começam a ecoar e a multidão lá embaixo se agita: um bando de pontos pretos esparsos e desordenados se aglomera num lugar em comum e torna-se de múltiplas cores; os rostos estão voltados em minha direção. Tudo o que eu não queria.

- Não pule! –, é só o que consigo distinguir da confusão de vozes lá de baixo. Até a moça de vestido vermelho deixa de ser notada. Também ela deixa de lado sua vaidade para olhar para mim.

Acredito que será o fim de tudo. Não creio num paraíso, inferno, purgatório ou reencarnação. E fiz minha escolha; quero o fim neste instante. Mas quero que seja em paz. Já me distanciei o suficiente para fazer falta não mais que dois ou três dias. As pessoas ali embaixo não sabem disso, pensam que estou aqui porque devo ter perdido o emprego, briguei com a esposa, estou endividado, deprimido ou coisas do tipo. Os clichês do suicídio: creio que não me encaixo em nenhum deles. Penso simplesmente que há vazio e falta de sentido demais na vida e na humanidade. E essa falta de intensidade sempre me fez muito mal; somos sempre muito intensos em relação ao dinheiro, ao sexo, à paixão, ao trabalho, etc., mas esquecemos dos gatos em nossas varandas, do céu acima de nós, da mangueira sexagenária em uma rua qualquer de um bairro pacato. Talvez essa condição blasé seja própria do ser humano, mas nunca deixou de me incomodar. Assim sendo, simplesmente gostaria de não mais me incomodar, mas sim respirar o ar diferente daqui de cima por uns instantes, aproveitar a visão única, sentir a sensação única do vento sobre o rosto em queda livre e desligar. Eu me conformei com isso; por que o povo ali de baixo não?

Um carro dos bombeiros chega, uma equipe sobe até o telhado e tenta o primeiro contato. Não gostaria de sentir que minha morte será um estorvo, um desastre televisivo, nem que ninguém reflita sobre isso. Acho que escolhi o pior lugar e hora para isso. Esse ponto final já estava cheio de conflitos não resolvidos com a sociedade.

- Estamos aqui para ajudar, senhor. Por favor, fique calmo –, me disse um deles.

- Sim, vocês fazem um ótimo trabalho. Admiro o que fazem pela sociedade e ficarei calmo, como me pediu -, respondi, cordialmente.

- Então me ajude neste também. Normalmente, devo ser chamado pelo meu sobrenome, Paiva. Mas você pode me chamar de Roberto, meu primeiro nome. Qual o seu? – ele perguntou, tomando todas as precauções para que eu não me agitasse e caísse por acidente. Admiráveis esses bombeiros; realmente querem salvar vidas.

- Meu nome não é importante. E você tem o nome do meu pai. Pode me chamar assim também.

- Por que não quer ser chamado pelo seu nome? Você é um indivíduo, senhor. E é muito importante para a sociedade, para sua família e amigos. -, me decepcionei um pouco com o clichê mas dirigi-lhe um sorriso amigável.

- Porque eu vou sair daqui da beira e irei junto com você, Roberto. Mas vou deixar de viver em breve, e não gostaria que você me identificasse depois. Vou tomar o cuidado de fazer isto longe da sua base, assim você sequer irá recolher meu corpo. É uma questão que já está decidida, mas quero fazer de forma discreta, e esse alarde todo me fez perder a vontade. Caso saia no jornal quando eu fizer novamente, você não saberá que sou eu.

Percebi a confusão no olhar de Roberto, o que é absolutamente normal. Uma calma dessa para um suicida provavelmente é a mesma de um psicopata, e os bombeiros não lidam com esse tipo de gente. Creio que seja mais fácil sentir-se satisfeito em salvar alguém que se debata em desespero do que alguém convencido somente pela presença dele ali. Espero que ele passe a acreditar que salvou uma vida e não me reconheça depois, quando eu for mais eficaz em meu ponto final.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O Estrangeiro


Não são poucos os que dizem que todo bom escritor é melancólico, solitário, bem como toda boa obra literária é densa, triste, carregada dos piores sentimentos humanos. Ao lermos a maldade é que enxergamos o bem. O debate é longo, diz respeito aos objetivos da arte para a humanidade (isso se houver algum) e não penso em tratá-lo aqui. Quero falar de minha manhã.

Fui despertado por uma brisa leve que atingiu minhas persianas e chegou ao meu rosto, denunciando a aurora, seguida, em poucos minutos, de uma luz solar amarelada que repousou sobre os telhados vizinhos. Me levantei e vi meu pequeno siamês enrolado, embaixo de seu cobertorzinho, perceber o movimento de meus passos, abrir seus pequeninos olhos azuis, certificar que está tudo bem e voltar a esconder-se da luz do dia em suas pequenas patas. Fui à varanda e vi um casal de idosos caminhar suavemente na rua deserta, onde não se ouve mais do que os ecos de uma cidade que ainda despertava. Estão se exercitando e andam de mãos dadas; não trocam palavras entre si, mas sincronizam seus passos de forma incrível. “As palavras também são desnecessárias, como o provam os mudos de nascença“, já disse Campos de Carvalho. Finalmente o compreendi.

Faço um chocolate quente, ligo a TV e me sinto um transgressor de minha idade, sorrindo ao assistir o Tom executando a Rapsódia Húngara de Liszt, enquanto Jerry sabota-o de todas as formas. Torço sempre pelos gatos, seja qual for a ocasião. Meu pequeno siamês incomoda-se com o volume e a claridade tão próxima e vem ao sofá, em minha direção. Aproveita-se de minha calça de moletom ainda quente para aconchegar-se e cair no sono, enquanto acaricio-o e ouço seu ronronar escandaloso. Dorme com tremenda felicidade e me faz sorrir, desejando a eternidade para aquele momento.

Dirigi-me ao quarto de meu filho, que completou 1 ano há duas semanas, numa festa que foi mais para os convidados que para ele. Jurei a mim mesmo dedicar todas as outras cerimônias para quem realmente é importante. Mas isso deve ser normal para quem é pai de primeira viagem, e ele sorriu por alguns momentos, o que fez a comemoração valer a pena, afinal. Em seu bercinho, ele dorme profundamente ao som dos pequenos sinos sobre seu berço, movimentados pela leve brisa da manhã. Vejo o centro da razão de minha existência e da vida como um todo naquele estufar e esvaziar de sua pequena pança. Meu pequeno siamês adentra o quarto e mia para mim, desesperado em pensar que o troquei pelo bebê. Eles vão se entender um dia. Por ora, somente eu desfruto ao máximo o prazer da companhia de cada um, me tornando mais feliz todas as manhãs de minha vida. Especialmente essa.

Apesar disso, precisei despedir-me de ambos e partir pelo resto do dia. Hoje, mamãe morreu. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A criação da eremita

... e, de arma apontada à própria cabeça, vocifera contra a família que o abandonara. Seu único filho come seu pedaço de pizza enquanto olha-o fixamente, embora com indiferença. Paolo compreende, finalmente, sua insignificância: se houve algum acontecimento que o tornou importante em sua quinquagenária vida foi ter sobrevivido e tirado proveito da grande crise econômica, o que possibilitou a boa formação de Marco, que agora ingeria a pizza preparada pelo pai, saboreando seu gosto de morte. Paolo desiste do disparo, mas não por muito tempo.”

A primeira metade do livro já foi lida. Aline sentia-se tão envolvida pela trama que logo tratou de virar a página. O restante, contudo, estava em branco, e ela não tinha a menor ideia de como preenchê-lo. Sabia como a história termina e como toda a trama se desenrolava e terminaria na pizza que Marco digeria; faltava-lhe desenvolver o resto. O último parágrafo já estava em sua cabeça: “Paolo disparou silenciosamente, e executou sua família, seu bem mais precioso, de forma indolor e ingênua; eles caíram subitamente, um a um, em paz. Assim, seria bem quisto no paraíso.”. Um caminho de 120 páginas a se percorrer para explicar a ligação entre aquele momento e todo o contexto, projetar ações em seus personagens, tornar mafiosos caricaturais em seres densos, soturnos; criaturas que agem durante a noite, silenciosos e eficazes; predadores quase que naturais. Tanta ferocidade os levaria à ruína pela fome e pelo egocentrismo. Paolo aplicara-lhes um teste, e eles todos falharam.

O final, a moral da história, a tese de que o homem morre pela sua própria fome estava pronta; faltava a Aline argumentar nessa direção. Construir esse caminho como natural, como seres humanos, tendo poderes sobre a vida de outros, se corrompem aos poucos. Os grandes marcos se construíam rapidamente na cabeça de Aline; era capaz de descrever com grande eloquência a decapitação de Luís XVI, mas não passava pela sua cabeça o processo de esfriamento do coração do carrasco até aquele momento. Como teria sido sua infância? Sua primeira execução? O primeiro disparar de coração ao tirar a vida de uma criatura qualquer, a primeira hesitação diante da súplica desesperada de um homem que transmitia a inocência de sua alma pelos olhos?

Aline esperou pelo anoitecer e foi até a rua mais isolada de seu bairro: uma pequena viela repleta de pequenas casas térreas, onde residem idosos que seguem um padrão de vida interiorano. Às 9 horas a rua está morta e escura, já que a luz dos postes não funciona e nenhum carro passa por ali. Em poucos minutos, seus olhos se acostumaram à escuridão e ela já era capaz de ver o vulto dos ratos saindo dos bueiros, rumo à caçada noturna de restos dos humanos. Um calafrio lhe subiu à espinha quando a cauda de um deles roçou sua canela, embora ela não sentisse medo destes roedores. Seus ouvidos ambientados passaram a perceber o menor ruído na rua e no interior das casinhas, aflorando-lhe os devaneios mais improváveis. Aline jamais sentira medo nas ruas, mas passava a ficar atenta com o barulho de passos na esquina. Tomava nota mental de cada nova e pequena sensação, de modo a ser capaz de descrevê-las. Pensava que o escritor devia pôr-se à prova, até o limite; só assim sua escrita transcenderia o ordinário: não lhe agradava a ideia, por exemplo, de um romance onde o amor era imediato. Para ela, os distúrbios fortalecem qualquer relação e, quanto mais problemáticos os personagens, mais problemático o amor. Mas a verdadeira vida é problemática!

Aquela era uma noite de calor, mas Aline sentia suas mãos geladas, a ponto de abraçar as próprias pernas para se aquecer. E os ratos não paravam de sair; mas, ao invés de se acostumar com eles, sentia-se cada vez mais amedrontada. Passava a enxergar também pequenos pontos ligeiros nas paredes brancas. Baratas. Onde estariam as lagartixas agora? Havia fartura e ela precisava de uma certa proteção. Temia que a cada momento uma barata subiria pelos pés e ela teria que afastá-las com as mãos. Só o sentimento do talvez a amedrontava e ela passou a entender melhor como funciona a paranoia; isso seria útil para Paolo. Mas faltava-lhe ir além, e isso a manteve naquela viela escura.

Uma moto adentra a rua, apavorando Aline com o farol. O motociclista avança lentamente; ela não enxerga nada, além da luz alta voltada diretamente para seus olhos e a enorme sombra escura atrás dela. Os ratos correm desesperadamente para os bueiros e ela pensa que eles são criaturas, de fato, paranoicas. Mas o desespero de Aline a imobiliza. De coração disparado, percebe o motociclista parando ao seu lado, com a moto ligada: sua roupa é totalmente preta e é impossível ver algo dentro do capacete, que está com sua parte frontal voltada para ela. Ele desliga o motor e a observa. Dentro de uma das casas, uma tosse gutural e passos arrastados de sandália em direção à janela. O motoqueiro olha para a casa e Aline, apertando a saia de seu vestido, continua imóvel, olhando-o, atônita. Um estrondo abre a janela e mais tosses. A moto é religada e parte em disparada. Da janela, ouvem-se mais tosses, o escarrar e cuspir de um velho, que volta para sua cama nos mesmos passos arrastados de sandália. A seguir, um vento forte agita os cabelos da moça, trazendo consigo uma jasmim, que a atinge em cheio no rosto, e o maior alívio de sua vida.

Em 15 dias, termina seu projeto. “Assim, seria bem quisto por um paraíso repleto de jasmins, que estão em movimento todo o tempo, num turbilhão de tranquilidade.”

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Inércia

Aqui estou, entregue ao seu julgamento. Cansei de me esconder em heterônimos fantásticos, anacrônicos, misantropos, embriagados e herméticos que me habituei a escrever. Todos esses personagens refletem uma parte de mim no passado, presente ou ideal de futuro que sempre me foi projetado por todos ao meu redor. Mas digo de antemão: sigo o padrão dos homens e ao longo do tempo mais decepcionei que orgulhei meus congêneres. Meu trabalho sempre foi o de mascarar tamanhas decepções e torná-las justificáveis, mesmo que por vezes bastasse a simples admissão do erro e eu seria esquecido; quem sabe as expectativas sobre mim diminuíssem dessa forma?

Falei a respeito de um padrão dos homens e isso significa que considero que não há diferenças significativas entre nós. Por mais que estejamos presos a idiossincrasias, vicissitudes e genética distintas, somos incutidos por valores morais quase que idênticos desde nosso nascimento. Estes, que pretensamente igualariam os desiguais reproduziram formas de vida convenientes e angústias sem escapatória; o espírito está preso à dicotomia sucesso-fracasso, onde é possível a consulta de manuais que nos levam para um caminho ou outro. Ademais, fez com que certas pessoas acreditassem numa bondade congênita: “ele não faria mal a uma mosca!”, “ele sempre foi tão inteligente, e parece sempre contar com a sorte, vai ser bem sucedido naturalmente”. Ouvir isso nunca facilitou minha vida, mas ao contrário, a tornou mais difícil. “Naturalmente”, eu teria que ser bem sucedido em tudo o que fizesse ao longo de minha vida. E se não, não era pra ser, e logo algo melhor apareceria. Mas me responda, caro leitor: se a expectativa é que as coisas sempre melhorariam para mim, por que eu deveria me apegar ao presente ou tentar aprender com o passado? “Naturalmente”, todos os acontecimentos de minha vida seriam superados por outros, melhores, e isso diz respeito a trabalhos, amizades, amores, aprendizados.

Aos 40, percebi que as coisas, na verdade, não melhoravam e nunca tinham chegado a um ápice. Minha vida estava cercada de anti-clímax; o trabalho para o qual agora era qualificado (pois tinha negligenciado adquirir experiências e competências evocando a sorte) me era negado pela idade; uma relação amorosa, para a qual agora estava pronto para encarar com maturidade, me era negada, pois agora era um solteirão de idade relativamente avançada e que nunca se comprometera com ninguém. Não era  confiável se envolver comigo. Era tarde para recomeçar, era cedo para acabar. Restava o martírio e o peso a se carregar até o fim; as lamentações e reflexões na busca de uma descoberta sobre como minha vida chegara àquele ponto, a busca pela lógica do fracasso.

Mais uma vez, me justifiquei: a culpa estava nos que me supervalorizaram e me tornaram num preguiçoso que contava sempre com a sorte e em minha suposta superioridade sobre os demais.

Me acomodei. Cedo ou tarde, imaginava que seria agraciado pelos que tiveram a honra de me conhecer e que perceberiam meu valor naturalmente. Tudo haveria de ser natural quando se tratava de um ser superior como eu, dotado de grande capacidade inata. Me orgulhei até os 50 anos de, no colegial, calcular, de cabeça, uma multiplicação de vários algarismos mais rápido que o tempo que meus colegas levavam para realizar a operação na calculadora. Era evidente que eu aprendia mais rápido que os outros; logo, me bastariam dez minutos para entender qualquer assunto. Na faculdade, me entediava com o academicismo exagerado e discentes que estavam ali somente para puxar o saco dos docentes. Contentava-me em tirar uma nota razoável sem estudar tanto tempo e aproveitar outras facetas da vida a me matar de estudar por coisas que em anos estariam esquecidas nas profundezas de qualquer mente. Bastava o diploma e um ótimo trabalho viria naturalmente; as pessoas olhavam para mim e percebiam um ar de sabedoria e meu vocabulário rebuscado reafirmava tais pontos de vista.

Mas minha mente estava dispersa, voltada demais aos aspectos gerais da vida e pouco apegada às miudezas técnicas de ciências cartesianas sem sentido. Meus trabalhos não tinham relevância e pouco me acrescentaram ao longo dos anos. Mas naturalmente algo melhor viria. Naturalmente, um amor viria ao meu encontro. Naturalmente, eu corresponderia às expectativas que foram depositadas em mim. Naturalmente, a culpa foi dos outros. Lamento que o mundo não tenha percebido o quanto eu era especial para ele e tenha me isolado, mantendo-se em sua mediocridade.

Hoje, aos 73, percebo que o natural na linha do tempo e da vida é o declínio, a doença e a morte. Mas, naturalmente, você terá que vir a mim para aprender esta valiosa lição que tenho a lhe ensinar. Escrevo de forma medíocre, mas discurso esplendidamente.

                                                                                                P. A. de C.